24.4.09

Desempregados inscritos em Março mostram maior subida em 30 anos

João Ramos de Almeida, in Jornal Público

Desemprego cresce pelo sexto mês consecutivo e abrange cada vez mais a indústria. O Estado está prestes a deixar de atenuar a queda dos empregos


O desemprego acelerou abruptamente em Março, segundos dados ontem divulgados pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional. Nesse mês, inscreveram-se 65.743 novos desempregados, mais 53 por cento face ao mesmo mês de 2008, o que representou a maior subida dos últimos 30 anos.

Esta variação indicia um aprofundamento da crise, em que o próprio Estado parece já não ser capaz de atenuar a tendência geral.

O desemprego registado nos centros de emprego está a subir pelo sexto mês consecutivo. E a um ritmo cada vez mais pronunciado. Se no último trimestre, o número de desempregados registados crescera a uma média mensal de 3,3 por cento face ao pe-ríodo homólogo, em Janeiro passado a subida acelerou para 12 por cento, em Fevereiro foi quase de 18 por cento e, finalmente, em Março passado foi de 23,8 por cento. No final de Março, estavam inscritos 484.131 desempregados. Ou seja, mais 93 mil do que em mesmo período de 2008.

A aceleração do desemprego registado está a verificar-se em todos os sectores de actividade e a abranger já os trabalhadores com vínculos permanentes. Segundo a CGTP, 39 por cento dos inscritos em Março tinham vínculos precários.

Na indústria transformadora, o último sector a ser tocado, o desemprego cresceu 32 por cento em Março passado. E já toca 160 mil pessoas, das quais 54 mil só na construção civil (a que se deve juntar mais 54 mil nos serviços ligados ao imobiliário), 23 mil no sector do vestuário e 13,8 mil no têxtil.

O sector dos serviços - que abrange 250 mil desempregados registados - foi contaminado mais cedo e regista igualmente uma aceleração da redução de pessoal, embora mais lenta - 17,9 por cento face ao mesmo período de 2008.

As actividades geralmente executadas pelo Estado - administração pública, educação, saúde e apoio social - registaram uma diminuição de 4,7 por cento do número de pessoas desempregadas que declararam ter sido despedidos desse sector. Mas esse valor representa um abrandamento na contratação e parece desenhar-se uma tendência mais próxima da evolução geral do desemprego registado. A verificar-se esse cenário nos próximos meses, o Estado deve começar a ser igualmente um "fornecedor" de desempregados.

O maior contributo para o desemprego da indústria transformadora verificado nos últimos meses - nomeadamente na construção civil - parece influenciar a distribuição entre homens e mulheres, na duração do desemprego inscrito e na distribuição regional.

Se o desemprego afecta de igual forma os dois sexos, o desemprego entre os homens atingiu já o seu valor mais alto dos últimos cinco anos, o que ainda não se passou entre as mulheres. Em Março de 2008, havia 233 mil mulheres inscritas e 158 mil homens. Passado um ano, as mulheres eram 264 mil, enquanto os homens eram já 219 mil. A subida do desemprego registado entre os homens foi de 39 por cento em Março passado, contra 14 por cento nas mulheres. Esta evolução segue de perto a evolução internacional.

A aceleração do desemprego é igualmente patente no facto de o desemprego estar cada vez mais concentrado em desempregados inscritos há menos de um ano e com mais idade e com o ensino básico de instrução.

Em Março passado, os desempregados inscritos há menos de um ano representavam já 75 por cento do total, quando há um ano eram 60 por cento. Os desempregados com mais de 25 anos - que continuam a ser 86 por cento do total - passaram de 338 mil em Março de 2008 para 416 mil um ano depois, ou seja, mais 23 por cento. Os desempregados inscritos com menos de 25 anos estão a crescer igualmente - mais 27 por cento.

Norte lidera

Finalmente, o Norte continua a concentrar o desemprego inscrito com 43 por cento do total. A região de Lisboa e Vale do Tejo contribui com 30 por cento do total e a região do Centro com 15 por cento.

Os centros de emprego colocaram em Março passado 4824 desempregados, o que representa menos 6,3 por cento dos colocados no mesmo pe-ríodo do ano passado. Os serviços de emprego aceitaram no mesmo período 9731 ofertas de emprego, ou seja, mais 1,1 por cento do que no mesmo mês homólogo.
A subida abrupta do desemprego registado parece afe
ctar de igual modo todas as profissões. Mas, sobretudo, trabalhadores não qualificados dos serviços, da indústria e construção, empregados de escritório. Mas, segundo os dados do IEFP, havia 5037 directores de empresa desempregados (mais 23 por cento do que em Março de 2008) e 1107 directores e gerentes de empresas inscritos nos centros de emprego (mais 30 por cento).