28.2.11

Desigualdades mantêm-se entre as zonas rurais e urbanas

Por Ana Rita Faria, in Jornal Público

Ainda mais surpreendente do que o crescimento económico fulminante das últimas décadas é o crescimento do Produto Interno Bruto per capita chinês. Entre 1980 e este ano, o indicador do rendimento médio da população disparou 3200 por cento, passando de 250 dólares para 8300 (ver infografia).

A evolução é gigantesca mas, se entrarmos em comparações, o PIB per capita chinês está bem longe de estar nos primeiros lugares do ranking mundial: é seis vezes inferior ao dos Estados Unidos da América, e quatro vezes ao do Japão. Um sintoma das desigualdades que continuam a existir num país que tem cerca de 1,3 mil milhões de pessoas.

A assimetria entre os meios urbanos e os rurais ou as regiões costeiras e o interior é enorme na China. Apesar da crescente aposta na industrialização do interior, a agricultura continua a ser a actividade predominante nas zonas rurais, empregando quase 40 por cento da força de trabalho chinesa, mas apresentando um peso de apenas dez por cento no PIB.

De acordo com os dados disponibilizados pelo Banco Mundial, a população rural passou de 72 por cento da população total, em 1990, para apenas 56 por cento em 2009. As taxas de crescimento são reveladoras: enquanto a população urbana aumenta 2,6 por cento, a rural recua um por cento. E as desigualdades ao nível dos rendimentos são cada vez maiores.

No campo, os trabalhadores chineses ganham um terço do que auferem os seus congéneres nas cidades. Dez por cento dos chineses mais ricos ganham 23 vezes mais do que os dez por cento mais pobres. Uma das causas deste fenómeno é um sistema de residência que bloqueia a cerca de 200 milhões de migrantes o acesso a benefícios sociais. Na prática, isto quer dizer que, quando um chinês deixa a sua área de residência para ir trabalhar para as cidades, perde direitos de protecção social e tem de poupar se quiser ter cuidados de saúde, educar os filhos ou ter dinheiro quando se reformar.

Mesmo para os filhos dos migrantes, que agora começam a entrar no mercado de trabalho, o cenário não é mais favorável. Apesar de terem crescido nas cidades, não têm residência nem direitos. Ganham pouco mais de 1500 iuans (166 euros) por mês e mostram-se cada vez menos dispostos a seguir o destino dos pais, gerando receios de que venham a tornar-se um foco de instabilidade social.

Uma análise divulgada precisamente esta semana pela Academia Chinesa de Ciências Sociais revela que os trabalhadores migrantes nascidos depois de 1980 - cerca de 100 milhões de pessoas - cometeram um terço dos crimes na China, no ano passado.