23.7.12

Adormeceram professores e acordaram sem turmas

Por Graça Barbosa Ribeiro, com base em conversas com os entrevistados, in Público on-line

Não ficam desempregados, como os professores contratados, mas não sabem o que farão em Setembro. Mudanças como a revisão dos currículos e o aumento do número de alunos por turma deixaram milhares com horários zero, ou seja, sem aulas para dar. Tinham uma situação que julgavam estável e uma escola que consideravam sua. Do ministério dizem que muitos serão "repescados"; eles aprendem a viver com a incerteza.

Cecília Lourenço: Nunca mais voltarei a ser a mesma
O pior é sentir que nunca mais vou ser a mesma. Pode parecer exagero. Mas é mesmo assim: eu, que não tinha medo, não voltarei a sentir-me segura. Não apenas na escola, mas no país.

No dia 12, o último antes do fim do prazo para a escola indicar os professores sem componente lectiva, não dormi. Mas não tive coragem de falar da minha angústia a alguém. Vivo no país cujo ministro disse que é preciso apostar na Matemática, dar mais horas a Matemática. E aos olhos dos meus colegas, no meio do caos em que se transformou a escola, eu era uma professora-com-uma-situação-mais-que-segura. Sem direito à dúvida, portanto.

Chegou sexta, dia 13. Sabia que quem tivesse horário zero seria notificado pela direcção da escola até às 18h30. Faltava um quarto de hora para as cinco quando caiu a mensagem de email. "Assunto: notificação." Chorei, horas, até já nem saber que chorava. E insisto: não foi só por causa do horário zero, daquele murro no estômago que é ler que não há alunos para nós. Foi também por sentir que algo em mim se quebrara, de forma irremediável.

Passei a vida a fazer contas e cada decisão que tomei assentou em cálculos precisos. Objectivo mínimo: garantir aos meus filhos uma qualidade de vida superior à que eu tive, como os meus pais fizeram em relação a mim.

Já tinha percebido que a realidade é avessa à Matemática. Não fosse assim e o futuro teria acontecido como está descrito nesta folha em Excel, em que eu e o meu marido sustentámos a decisão de pedir um empréstimo. A casa existe, mas há este flagrante desvio na parcela dos vencimentos. Juntos, ganhamos menos 800 euros por mês do que previmos na altura.

Podem argumentar que errámos no cálculo das probabilidades. Mas, por mais que isso agora pareça estranho, na altura era natural as pessoas confiarem na estabilidade das leis, como as que garantiam que íamos progredir na carreira ou receber os vencimentos por inteiro e os subsídios pelo Natal e no Verão.

Tentei adaptar-me a essa fragilidade de um Estado, que antes achava assente em leis estáveis e seguras. Mas sucumbi, no último mês, à situação inimaginável que é todos os dias - todos - sentir que esse edifício treme e se deforma. A ponto de não passar pelo sono sem um sobressalto, tais as probabilidades de adormecer professora e acordar descartável.

Dizem-me que há muitas hipóteses de eu ser "repescada", de voltar a ter um horário, alunos. E eu penso: talvez. Mas não posso voltar a ter-me a mim, tal como eu era antes disto.

Miguel Saturnino: O pior é não encontrar nisto uma lógica
De mim não esperem lamentos nem palavras de ordem. Não faz o meu género. Os meus amigos dizem que sou irritantemente calmo - e é verdade, irrito-os por lhes parecer conformado. Já isso é mentira, posso parecer, mas não estou. Talvez ache que não tenho o direito de me lamentar quando penso na tragédia que este processo representa para os meus colegas contratados. Eles estão a ser despedidos. Ponto. Eu terei um ordenado em Setembro e em Outubro e em Novembro. Acho.

Percebe-se quanto vale o dinheiro quando sabemos que um colega pode perder a tutela de um filho por ficar desempregado. É só um exemplo, não gosto de falar da vida dos outros. O que eu quero dizer é: olhando para situações como essa, eu vou queixar-me de quê? Mas isso não significa que me cale. Da última vez que participei numa manifestação era pouco mais que adolescente e agora estou capaz de voltar à rua. Quem me conhece, quem sabe como sou "irritantemente calmo", sabe o que isto significa. Ou o que significa estar aqui, a dar a cara.

Gostava de dizer ao senhor ministro que o pior é não encontrar uma lógica naquilo que se está a passar. Não tenho dúvidas de que é economicista, mas nem assim faz sentido. Porque eu continuarei a receber o meu ordenado para fazer sei lá o quê, enquanto, na sala ao lado, um colega - eventualmente menos experiente que eu - se debaterá com as dificuldades naturais em lidar com uma turma de 30 alunos. Poupa-se o quê? Ganha-se o quê?Por mais voltas que se dê nada bate certo. Investiram nos edifícios, temos uma escola fantástica, construída de raiz. E, ao mesmo tempo, desinvestiram em quem ensina, primeiro desvalorizando a figura dos professores, e agora afastando muitos de nós das salas de aula.

O retrocesso, em termos de educação, é imenso. As palavras do ministro, em que não se detecta uma ideia, um fio condutor, uma estratégia, são assustadoras. E, de alguma maneira, isto faz com que eu tenha esperança. A falta de sentido é tal, que a situação só pode ser transitória - mais cedo ou mais tarde, isto será corrigido.

Não estou conformado. Estou à espera. Posso ser repescado, posso não ser, posso ter colocação noutra escola, mas o mais provável é não ter. Se assim for, em Setembro regresso ao lugar onde era professor, desta vez sem alunos. Aguardarei que o senhor ministro diga o que tenciona fazer comigo. Entretanto, continuarei à espera do mais importante - que alguém combata o que este e outros governos têm feito com a educação. Que diabo?! Hei-de voltar a dar aulas.

Claúdia Mestre: Agora, o futuro persegue-me como a minha própria sombra
Dantes, quando as coisas corriam mal, eu pensava: "Um dia de cada vez, tenho de viver um dia de cada vez." Agora, um dia é tempo de mais - quantas coisas podem acontecer num único dia? Por isso eu vivo momento a momento, sem pensar no momento seguinte. Não porque seja lamechas. Não sou. Pelo contrário. Não olhar para o futuro é a minha maneira de arregaçar as mangas e dizer "Aqui estou eu. Pronta para o que der e vier."

Claro que isto é fácil dizer. Se também fosse fácil fazer, eu não estaria preparada, apenas, para este momento; eu conseguiria abstrair-me, realmente, do futuro. Eu sei que disse que não olho para ele, mas de há uns dias para cá o futuro é uma coisa que eu sinto como a minha própria sombra - tento ignorá-lo, mas, faça eu o que fizer, o futuro persegue-me. Como uma sombra, está a ver? É confuso, eu sei - ainda estou a organizar as ideias na minha cabeça.

Imagine-se um filme. Uma professora que adora a sua profissão e que, por ela, enfrenta a vida de contratada, que é uma vida de nómada, pelo país, de escola em escola, com a tralha às costas, ano após ano. Um dia, depois de muitas peripécias que não vale a pena contar, consegue um lugar no quadro, perto de casa. E esse é um dia de festa, um dia de chegada. A professora livra-se do caixote que a acompanhou na sua vida de nómada e põe os seus materiais no armário da escola. Chegou - sente-se em casa.

E agora parem nessa imagem. É mais ou menos aí que estou, mas o filme está a rodar para trás. Há dias, disseram-me que já não pertenço ali, àquele lugar; disseram-me que não sou necessária; que não terei alunos; e eu tive de arranjar um caixote, de ir à escola, de lá pôr os meus materiais e sair com ele nas mãos, com as pessoas a olhar para mim, como nos filmes.

Agora estou a concorrer para escolas que não conheço e onde provavelmente não vou ter lugar; e a viver uma angústia pior do que a dos tempos em que era contratada, porque agora não estou a andar para a frente, a caminho de casa; estou a correr para trás, em direcção ao tal futuro em que não quero pensar.

Há duas semanas, o meu marido, que tem uma licenciatura e duas pós-graduações, era o trabalhador precário e eu a que tinha a situação estável, que nos permitiu ter uma filha, começar a pagar uma casa e fazer planos. Agora ele continua precário e eu sou ex-estável. É assustador. Mas acho que posso lidar com isto se me concentrar no momento e mantiver os olhos enxutos e as mangas arregaçadas. Pronta para o que der e vier. No momento. Amilcarino Guedes: Ninguém merece isto. A escola pode ser esta anedota?
O meu caso é complexo - estreei-me a dar Trabalhos Oficinais, acabei a ensinar Informática e hoje sou ex-professor de Educação Visual e Tecnológica - chamam-lhe EVT. Mas já lá vamos.

Início dos anos 1990: quando o Ministério da Educação se lembrou de tornar a Informática obrigatória, nas escolas mal se sabia o que era um computador. Lá fomos uns tantos receber formação. Desde essa altura que dou aulas de Informática e que não paro de a estudar. Passaram-se mais de 20 anos e acho que se percebe: para mim, eu sou professor de Informática. Para a escola e para o ministério também, que só assim se aceita que ainda agora, e por duas vezes, me tenham posto a avaliar os colegas - de Informática, claro.

Mas, nem há um mês, o director chamou-me. Para me dizer que, pela lei, afinal eu não sou o que pensava. Para ser, na altura certa devia ter-me candidatado ao grupo de Informática e abandonado o de EVT. Não o tendo feito, e porque a lei assim o diz, que tivesse paciência. Apesar de ter habilitação própria e mais anos de serviço do que qualquer colega, acabava de cair no fim da lista e de ser premiado com horário zero.

Eu, que deito tudo para fora e digo o que devo e não devo, fiquei mais que revoltado. Ainda que (raios partam a culpa) ainda agora me pergunte por que é que não me lembrei de concorrer ao outro grupo.

A questão é que, com culpa ou sem ela, ninguém merece isto. Há duas semanas fui parar a uma sala com cinquenta e tal professores, uns a ralhar, outros a chorar, a quem a direcção explicou que tínhamos de ir a concurso. Uma semana depois avisaram que afinal éramos menos de 50. Que ficássemos atentos: quem recebesse um email caía fora, quem não recebesse nada era porque se safava. E lá ficámos nós, um dia inteiro a olhar para o computador: chega email, não chega email, "tu já te tramaste", "ele ainda não", "talvez eu me safe", "o outro já se lixou".

Agora, o ministro vem dizer que, afinal, há uns lugarzitos para mais uns tantos. E eu só me lembro daquela anedota sobre um grupo de amigos que não sabe como há-de dizer a um tipo que o pai dele morreu e decide anunciar-lhe que perdeu a família toda. Quando ele percebe que foi só o pai fica todo contente: "Que alívio!" Assim faz o ministro: "Afinal, os professores não morreram todos." E uma parte suspira, agradecida: "Que alívio!"

Eu - que não me safei - cá vou andando. A perguntar como é que não há quem faça ver a quem manda que a escola pública não pode ser esta anedota.