27.11.12

Este país não é para desempregados

por Teresa Abecasis, in RR

Vivem com o subsídio de desemprego, mas garantem que queriam é estar a trabalhar, porque o que recebem não paga as contas. A partir de Janeiro, será mais difícil: o Orçamento de Estado prevê um corte adicional de 6% em todos os subsídios de desemprego.

São três da tarde, é dia de semana e Sandra está em casa, a arrumar a louça. Desde Junho, descobriu que o desemprego torna os dias infinitos. Agora, tem mais tempo para tratar do filho, que está na primeira classe, para cuidar da casa e até está a tirar um curso pela internet, para se manter actualizada na área de gestão de recursos humanos, onde trabalhava.

Mesmo assim, o tempo continua a sobrar. A voz treme-lhe quando explica que "está a ser muito complicado" ficar em casa "o dia todo, sozinha", sem se sentir "útil na sociedade". Sandra tem 31 anos e considera-se uma pessoa "dinâmica e activa".

Enquanto o filho aprende o abecedário e os números na escola, a mãe vai aprendendo a viver com os cortes no orçamento familiar. Felizmente, o marido continua a trabalhar. Mesmo assim, já não há idas ao cinema, jantares fora, concertos. No supermercado, o carrinho enche-se com produtos de marca branca.

O subsídio de Sandra ronda os 600 euros. A partir de Janeiro, e porque o Orçamento do Estado para 2013 assim o dita, vai receber menos 6%. No fim do mês, este corte equivale ao que Sandra paga pelo ATL do filho.

"Claro que eu vou continuar a pagar o ATL, mas vai-me custar mais. Esse valor corresponde também a um carrinho cheio de compras no supermercado", explica. Se tiver de cortar em alguma coisa, Sandra diz que vai passar a trazer o carrinho do supermercado mais leve.

"Agora é que estou a viver acima das minhas possibilidades"
Tem o terceiro ano de matemática e de engenharia de sistemas de informação. Desde que ficou sem emprego, em Março do ano passado, Alcides sente que já tirou outro curso. Sempre trabalhou em tecnologias de informação, mas, por causa da crise, ficou sem trabalho e teve de aprender a gerir o orçamento reduzido que leva para casa.

"Tivemos que fazer cortes em tudo. Eu tinha um salário que dava para quatro pessoas viverem, sem luxos. Agora não dá", conta. Alcides era o único que trabalhava em casa. A filha estava a estudar em Coimbra, a mulher não trabalhava para poder acompanhar o filho mais novo do casal, que precisa de acompanhamento especial.

O desemprego veio alterar tudo. Agora, é Alcides que está em casa, a mulher arranjou um emprego num "call center" e a filha mais velha teve de interromper os estudos em Coimbra e voltar para casa dos pais, na margem sul de Lisboa. Mas o dinheiro continua a não chegar. E Alcides vai acumulando créditos.

Sair do país para procurar trabalho está fora de questão. "Eu não andei a viver acima das minhas possibilidades. Agora sim, porque o dinheiro não chega."

Onde vai cortar com menos 6% de subsídio? Não vai. "É terrível, mas eu vou aumentar o crédito. Dentro de algum tempo vou rebentar. Portanto, preciso de trabalhar."

"Nunca tive uma vida melhor"
A quem o dinheiro já não chega há três meses é a Leonel. Passa os dias a percorrer as ruas, fala com os amigos, bate às portas, pergunta por um trabalho, que não tem desde o início de 2011. Muitas vezes, esquece-se de almoçar.

"Nunca tive uma vida melhor. Foi sempre trabalhar, pagar as minhas despesas", conta Leonel, que já há três meses que deixou de poder pagar as contas. Foi nessa altura que foi pedir ajuda alimentar ao Centro Social de Sacavém. Desde então, tem direito a um cabaz de alimentos que leva para casa, uma vez por mês, para a mulher doente e para os dois filhos em idade escolar.

Leonel recebe um subsídio de cerca de 400 euros, que vai quase todo para a prestação da casa. Por isso, passa os dias na rua, à procura de trabalho. Mas está cada vez mais difícil.

Está em Portugal há cerca de 25 anos, veio de São Tomé e Princípe e não teve dificuldades em encontrar emprego na construção civil quando chegou. Ficou desempregado porque estava a trabalhar para um patrão que deixou de lhe pagar e, habituado a saltar de trabalho em trabalho, decidiu procurar quem lhe pagasse. Até hoje.

Leonel queixa-se da concorrência, porque são cada vez mais os que respondem a qualquer oferta. Mesmo assim, não desiste e lá vai entregar mais um currículo. A pé, para não gastar o dinheiro que não tem.